Quando o trabalho começa a adoecer a alma: os nove pecados que podem dominar nossa vida profissional

 


Durante muito tempo, a espiritualidade cristã foi tratada como algo pertencente principalmente à igreja, à oração, ao culto e à vida devocional. O trabalho, por outro lado, parecia pertencer a outra esfera: a das responsabilidades, metas, salários, negócios, produtividade e sobrevivência. Entretanto, a Bíblia jamais apresentou uma divisão tão rígida entre o sagrado e o cotidiano. Deus não é Senhor apenas do domingo. Ele também é Senhor da segunda-feira.

É justamente nessa perspectiva que R. Paul Stevens e Alvin Ung, em Taking Your Soul to Work: Overcoming the Nine Deadly Sins of the Workplace, chamam nossa atenção para uma questão extremamente necessária: podemos levar nossa alma para o trabalho, mas também podemos permitir que o trabalho molde nossa alma de maneira destrutiva.

O ambiente profissional não é espiritualmente neutro. Ali aparecem nossas ambições, inseguranças, desejos, frustrações, comparações e necessidades de reconhecimento. É possível trabalhar em uma empresa cristã e alimentar orgulho, inveja ou ganância. Também é possível exercer uma profissão comum e transformar o próprio trabalho em um lugar de serviço, vocação, testemunho e crescimento espiritual.

O problema, portanto, não está apenas no que fazemos para ganhar a vida, mas naquilo que o trabalho está fazendo conosco.

Os antigos pecados em um mundo moderno

Uma das contribuições mais interessantes da obra é utilizar a antiga tradição cristã dos chamados “pecados capitais” para examinar as lutas da alma no ambiente de trabalho. Os autores apresentam nove “pecados” que podem consumir a vida profissional: orgulho, ganância, luxúria, glutonaria, ira, preguiça, inveja, inquietação e tédio.

Alguns deles parecem evidentes. Outros, porém, aparecem de maneira tão sofisticada em nossa cultura profissional que deixamos de reconhecê-los como problemas espirituais.

O orgulho, por exemplo, pode se esconder atrás da competência. A ganância pode ser chamada de ambição. A preguiça pode se disfarçar de excesso de tarefas. A inveja pode aparecer como uma preocupação legítima com justiça. A inquietação pode ser confundida com desejo de crescimento. O tédio pode ser racionalizado como simplesmente “não gostar do emprego”.

É por isso que precisamos olhar além do comportamento externo e examinar o coração.

1. Orgulho: quando queremos ocupar o lugar que pertence a Deus

O orgulho talvez seja um dos pecados mais perigosos porque consegue se esconder até mesmo dentro de nossas virtudes.

Uma pessoa competente pode começar a acreditar que é indispensável. Um líder pode deixar de ouvir. Um profissional pode considerar-se superior aos colegas. Um ministro pode acreditar que sua posição lhe dá maior importância espiritual. Pouco a pouco, a pessoa deixa de receber o trabalho como uma responsabilidade diante de Deus e passa a utilizá-lo para construir sua própria identidade.

O problema do orgulho não é simplesmente pensar bem de si mesmo. É colocar o próprio “eu” no centro.

Provérbios declara: “A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito precede a queda” (Provérbios 16:18, ARA).

O trabalho cristão precisa ser realizado com excelência, mas excelência não é a mesma coisa que autopromoção. Podemos fazer o nosso melhor sem precisar transformar nosso desempenho em um altar para nossa própria glória.

2. Ganância: quando nunca é suficiente

Vivemos em uma cultura que constantemente nos ensina a desejar mais. Mais dinheiro, mais reconhecimento, uma casa maior, um cargo melhor, mais influência, mais seguidores, mais poder.

O problema não está necessariamente em desejar crescimento. O problema começa quando o “mais” se transforma em senhor.

A ganância não pergunta apenas quanto precisamos. Ela pergunta quanto podemos acumular. E, quando o coração é dominado por ela, o trabalho deixa de ser uma vocação e passa a ser um instrumento para alimentar uma insatisfação permanente.

Jesus foi direto: “Porque, onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração” (Mateus 6:21, ARA).

A pergunta espiritual não é apenas “quanto eu ganho?”, mas “o que o meu desejo por ganhar está fazendo com a minha alma?”.

3. Luxúria: quando pessoas se tornam objetos

O ambiente profissional também pode ser contaminado pela sexualização dos relacionamentos. A proximidade cotidiana, a busca por aprovação, a necessidade de reconhecimento e a ausência de limites podem criar situações que começam aparentemente de maneira inocente.

A luxúria reduz o outro àquilo que ele pode proporcionar para satisfazer nossos desejos. Por isso, não é apenas uma questão de comportamento sexual. É uma questão de como enxergamos pessoas.

O princípio bíblico é mais profundo: o próximo não existe para satisfazer minhas necessidades. Ele é alguém criado à imagem de Deus.

A santidade, portanto, também precisa entrar no escritório, na sala de reuniões, nas mensagens profissionais e nos relacionamentos construídos diariamente.

4. Glutonaria: quando o excesso se torna um estilo de vida

A glutonaria pode parecer um pecado distante do mundo corporativo, mas o princípio apresentado pelos autores é mais amplo: trata-se da relação desordenada com o consumo e com os prazeres.

Comemos demais, compramos demais, trabalhamos para consumir mais e, muitas vezes, tentamos preencher o vazio interior com aquilo que podemos adquirir.

O problema não é desfrutar das coisas boas que Deus concede. O problema surge quando precisamos constantemente de mais alguma coisa para nos sentirmos satisfeitos.

O coração humano não encontra descanso simplesmente aumentando o consumo.

5. Ira: a necessidade de controlar

No ambiente profissional, a ira pode assumir uma aparência respeitável. Ela pode se apresentar como liderança forte, exigência, firmeza ou busca por resultados.

Mas existe uma diferença entre firmeza e agressividade.

Quando somos contrariados, quando alguém ameaça nossa posição ou quando as coisas não acontecem conforme planejamos, nossa reação revela muito sobre nós.

A ira frequentemente está ligada ao desejo de controlar. Queremos controlar pessoas, resultados, circunstâncias e até mesmo a maneira como os outros nos percebem.

Tiago nos lembra: “A ira do homem não produz a justiça de Deus” (Tiago 1:20, ARA).

Nem toda indignação é pecaminosa, mas a ira que nasce do ego ferido pode destruir relacionamentos, equipes e, principalmente, a própria alma.

6. Preguiça: quando estar ocupado não significa ser produtivo

Aqui encontramos uma das ironias mais interessantes do livro. A preguiça pode aparecer não somente como falta de atividade, mas também como uma espécie de ocupação patológica.

Há pessoas que estão sempre trabalhando, sempre correndo, sempre ocupadas, mas nunca conseguem parar para perguntar se estão fazendo aquilo que realmente importa.

A Bíblia não glorifica a preguiça, mas também não glorifica a escravidão ao trabalho.

Existe uma diferença entre diligência e compulsão. Trabalhar fielmente é uma virtude. Fazer do trabalho a nossa identidade é outra coisa.

O descanso também pertence à ordem de Deus.

7. Inveja: a dor diante do sucesso do outro

Poucas coisas revelam tanto o estado do coração quanto a dificuldade de celebrar a vitória de outra pessoa.

A inveja não diz necessariamente: “Quero aquilo que você tem”. Muitas vezes ela simplesmente pergunta: “Por que você tem e eu não?”.

O colega recebe uma promoção. Outra pessoa ganha reconhecimento. Alguém recebe um salário melhor. Outra mulher é escolhida para uma posição de liderança. E, silenciosamente, o coração começa a comparar.

A comparação é uma das grandes produtoras de infelicidade.

Quando nossa identidade está firmada em Deus, conseguimos reconhecer que a bênção recebida pelo outro não diminui aquilo que Deus está fazendo em nossa própria vida.

8. Inquietação: o desejo de fugir

Há momentos em que a única coisa que queremos fazer é ir embora.

Mudar de emprego. Mudar de cidade. Começar outro projeto. Abandonar tudo. Procurar alguma coisa nova.

Naturalmente, existem situações nas quais sair é necessário e sábio. Nem todo lugar precisa ser suportado indefinidamente. Porém, existe uma inquietação interior que nos faz acreditar que nossa felicidade estará sempre no próximo lugar.

O problema é que levamos nossa alma conosco.

Se o problema está dentro de nós, trocar de empresa não necessariamente resolve. Podemos mudar de escritório e continuar levando a mesma ansiedade, a mesma insatisfação e as mesmas feridas.

Às vezes, Deus realmente está nos conduzindo para um novo lugar. Outras vezes, Ele está nos ensinando a permanecer e amadurecer onde estamos.

É preciso discernimento para saber a diferença.

9. Tédio: quando a alma deixa de perceber significado

O tédio pode parecer simplesmente falta de interesse, mas ele pode revelar uma questão mais profunda: a perda do sentido.

Quando não conseguimos enxergar propósito no que fazemos, o trabalho se transforma em mera repetição. A pessoa continua cumprindo suas tarefas, recebe seu salário, volta para casa e repete tudo no dia seguinte, enquanto interiormente vai se apagando.

Por isso, precisamos recuperar a compreensão bíblica de vocação.

Nem todo trabalho será emocionante. Nem toda tarefa será prazerosa. Nem todos os dias serão extraordinários. Mas o cristão pode encontrar significado mesmo nas tarefas comuns quando entende que sua vida está diante de Deus.

“E tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor e não aos homens” (Colossenses 3:23, ARA).

Levar a alma para o trabalho

Talvez uma das perguntas mais importantes que possamos fazer seja esta: o que está acontecendo com a minha alma enquanto eu trabalho?

Essa pergunta é mais profunda do que “estou tendo sucesso?” ou “estou ganhando o suficiente?”. Ela nos obriga a olhar para dentro.

Estou me tornando mais humilde ou mais arrogante?

Mais generoso ou mais ganancioso?

Mais paciente ou mais irado?

Mais satisfeito ou cada vez mais insaciável?

Mais capaz de celebrar os outros ou cada vez mais dominado pela comparação?

Mais fiel à minha vocação ou simplesmente tentando escapar daquilo que estou vivendo?

O trabalho revela o coração porque coloca nossas motivações em contato com pessoas, dinheiro, poder, reconhecimento, frustração e responsabilidade.

Por isso, nossa vida profissional também precisa de discipulado.

Não basta ensinar alguém a administrar uma empresa. É necessário ensinar a pessoa a administrar o próprio coração.

Não basta formar profissionais competentes. Precisamos formar homens e mulheres cujo caráter seja capaz de sustentar aquilo que suas competências conquistarem.

O trabalho também pode ser lugar de santificação

Existe uma visão cristã muito bonita sobre o trabalho: Deus pode usar justamente as responsabilidades comuns da vida para formar Cristo em nós.

A paciência é exercitada quando lidamos com pessoas difíceis. A humildade é formada quando precisamos ouvir. A integridade é provada quando ninguém está observando. A generosidade aparece quando temos recursos. A fidelidade é demonstrada quando fazemos corretamente aquilo que não receberá aplausos.

O trabalho, nesse sentido, deixa de ser apenas um lugar onde produzimos alguma coisa. Ele se torna também um lugar onde somos transformados.

Não precisamos separar nossa fé da nossa profissão. Precisamos levar Cristo conosco para o trabalho.

Isso significa que a pergunta fundamental não é apenas: “O que estou fazendo com meu trabalho?”

Talvez seja necessário perguntar:

“O que meu trabalho está fazendo comigo?”

E, acima de tudo:

“Quem estou me tornando diante de Deus enquanto trabalho?”

Porque podemos conquistar uma carreira e perder a alma. Podemos alcançar reconhecimento e perder a família. Podemos aumentar nossos rendimentos e diminuir nossa alegria. Podemos construir uma reputação diante dos homens enquanto nosso caráter se deteriora em secreto.

O evangelho nos chama para algo melhor.

Cristo não quer apenas ser incluído em nossa agenda. Ele quer ser Senhor de toda a nossa vida. Isso inclui nosso escritório, nossa empresa, nossa profissão, nossos relacionamentos, nossas decisões financeiras, nossa liderança e até mesmo a maneira como enfrentamos os dias difíceis.

A verdadeira espiritualidade não termina quando saímos da igreja.

Ela continua quando entramos no trabalho.

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