Quando Deus Deixa de Ser o Amor que Organiza Todos os Outros Amores

Há uma pergunta que pode parecer simples, mas que, quando levada a sério, é capaz de revelar muito do estado do nosso coração: nós ainda amamos a Deus? Não se trata de perguntar se continuamos frequentando a igreja, orando, lendo a Bíblia, servindo ou cantando louvores. Todas essas coisas podem continuar presentes enquanto, silenciosamente, Deus deixa de ocupar o centro que antes ocupava.

Salomão nos oferece um exemplo particularmente sério. A Bíblia afirma que, no início de sua caminhada, ele amava o Senhor. Ele não começou distante, indiferente ou rebelde. Começou amando a Deus. Entretanto, com o passar dos anos, outros amores foram ocupando espaço em seu coração. Suas muitas mulheres o conduziram para outros deuses, e o coração daquele que havia recebido sabedoria extraordinária deixou de ser inteiramente dedicado ao Senhor.

Essa história nos ensina algo que continua profundamente atual. O perigo nem sempre está em deixar de amar a Deus de uma hora para outra. Às vezes, o coração simplesmente começa a reorganizar seus afetos. A família continua sendo importante, os sonhos continuam existindo, o trabalho continua exigindo dedicação e os relacionamentos continuam ocupando espaço. O problema acontece quando alguma dessas coisas deixa de estar debaixo do governo de Deus e passa a determinar nossas escolhas.

Deus não nos chama a deixar de amar as pessoas ou abandonar nossos sonhos. O problema não está necessariamente naquilo que amamos, mas na ordem dos nossos amores. Quando Deus ocupa o centro, os demais afetos encontram seu lugar. Quando alguma outra coisa ocupa o centro, até mesmo aquilo que é legítimo pode se transformar em um concorrente do próprio Deus.

É por isso que a pergunta “eu ainda amo a Deus?” precisa ser acompanhada de outra: “Deus ainda governa os meus outros amores?”. Aquilo que realmente amamos começa, pouco a pouco, a organizar nossas decisões. Protegemos aquilo que amamos, justificamos aquilo que amamos, sacrificamos tempo por aquilo que amamos e, algumas vezes, começamos até mesmo a negociar com Deus para não precisar entregar aquilo que ganhou espaço demais em nosso coração.

Existe outra realidade igualmente perigosa: podemos amar as coisas relacionadas a Deus sem necessariamente amar o Deus que fala. O livro de Ezequiel apresenta pessoas que se reuniam para ouvir o profeta. Elas apreciavam suas palavras e gostavam de ouvi-lo, mas não colocavam em prática aquilo que escutavam. Deus revela que, para elas, o profeta havia se tornado semelhante a alguém que cantava uma bela canção. Elas apreciavam a mensagem, mas não permitiam que a mensagem transformasse suas vidas.

Essa é uma advertência importante para nós. Podemos amar pregações, músicas, conferências, livros, estudos bíblicos e experiências espirituais. Podemos estar cercados pelas coisas de Deus e, ainda assim, resistir quando Sua Palavra toca justamente aquilo que não queremos entregar. Gostar de ouvir Deus não é necessariamente o mesmo que amar o Deus que fala.

Quem ama a Deus não deseja apenas ouvir palavras agradáveis. Também está disposto a obedecer quando a Palavra confronta, corrige e chama ao arrependimento. O amor verdadeiro não transforma Deus em um conselheiro que confirma nossas decisões. Ele reconhece Sua autoridade e permite que Sua voz tenha poder para mudar nossa direção.

Jesus também confrontou uma multidão que o procurava depois da multiplicação dos pães. Eles estavam atrás de Jesus, mas Jesus sabia que muitos estavam atrás do pão. Quando a mensagem ficou difícil, muitos deixaram de segui-lo. Então, voltando-se para os doze, Jesus perguntou se eles também queriam partir. Pedro respondeu com uma declaração que continua sendo uma das mais profundas expressões de devoção: “Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras de vida eterna”.

Pedro compreendeu algo essencial: Jesus não era apenas o caminho para receber alguma coisa. Jesus era suficiente. O pão poderia acabar, a resposta poderia demorar e as circunstâncias poderiam não corresponder às expectativas, mas ainda havia uma razão para permanecer: o próprio Cristo.

Talvez essa seja uma das maiores provas do nosso amor por Deus. Não quando Ele coloca algo em nossas mãos, mas quando nossas mãos parecem vazias e continuamos diante dele. Enquanto as portas se abrem, os sonhos acontecem e as orações são respondidas, podemos confundir gratidão com amor. Mas quando a resposta demora, somos confrontados com aquilo que realmente sustenta nossa devoção.

Isso não significa que não devemos pedir. Filhos pedem ao Pai. Também não significa que não podemos chorar, questionar ou apresentar nossas dores diante de Deus. A questão é outra: se Deus não nos der aquilo que esperamos, Ele continuará sendo suficiente?

Essa pergunta não foi feita para produzir culpa, mas para abrir o coração. Talvez Deus esteja nos convidando a reorganizar nossos afetos, recolocando cada coisa em seu devido lugar. Talvez não seja necessário abandonar aquilo que amamos, mas permitir que Deus volte a ocupar o lugar de onde nunca deveria ter saído.

Cristo não veio simplesmente para ocupar mais uma posição entre nossas prioridades. Ele veio para ser Senhor. Quando Ele está no centro, os outros amores não desaparecem; eles são ordenados. A família passa a ser amada de maneira mais saudável. O trabalho deixa de ser identidade. Os sonhos deixam de ser senhores. As pessoas deixam de carregar um peso que somente Deus pode suportar.

Por isso, talvez a pergunta mais importante para este momento não seja “o que Deus pode me dar?”, mas “se Ele não me der nada além de Si mesmo, Ele continuará sendo suficiente para mim?”.

Amar a Deus é permitir que Ele organize nossos afetos, governe nossas escolhas e tenha a palavra final sobre aquilo que ocupa o centro do coração. E quando Cristo volta ao centro, tudo aquilo que amamos encontra novamente o seu lugar.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Posso fazer sexo quando estou de jejum?

Mães de Joelho no Secreto

Eu sou uma Esposa de Fé