Quando o dinheiro deixa de ser ferramenta e se torna senhor

 Há assuntos que os cristãos costumam considerar espirituais: oração, jejum, leitura da Bíblia, evangelização, dons, ministério. Há também aqueles que, muitas vezes, colocamos em uma categoria aparentemente diferente, como salário, investimentos, compras, dívidas, patrimônio e planejamento financeiro. O problema é que Jesus nunca fez essa separação com a facilidade com que nós fazemos.

Dinheiro é uma questão profundamente espiritual.

Essa é uma das provocações centrais de Money Matters: Faith, Life, and Wealth, de R. Paul Stevens e Clive Lim. Ao examinarem a relação entre fé, vida e riqueza, os autores mostram que o dinheiro não pode ser compreendido simplesmente como um instrumento neutro que usamos conforme nossa vontade. Ele está ligado aos desejos, aos medos, às ambições, à segurança e à maneira como enxergamos nossa própria vida diante de Deus.

Talvez por isso Jesus tenha falado tanto sobre dinheiro.

Não porque dinheiro seja o maior problema da humanidade, mas porque aquilo que fazemos com ele revela aquilo que ocupa o centro do nosso coração.

O dinheiro pode se tornar um falso deus

Jesus declarou algo que continua sendo desconfortável para qualquer geração:

“Ninguém pode servir a dois senhores... Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro.”
Mateus 6:24 (NVI)

O texto não diz que não podemos ter dinheiro. Ele diz que não podemos servir a Deus e ao dinheiro.

Essa diferença é fundamental.

Possuir recursos não significa necessariamente ser dominado por eles. Uma pessoa pode ter muito dinheiro e, ainda assim, compreender que tudo o que possui pertence a Deus. Da mesma maneira, uma pessoa pode possuir pouco e estar completamente dominada pelo desejo de ter mais.

O problema não está apenas na quantidade de dinheiro que temos, mas no lugar que o dinheiro ocupa dentro de nós.

Stevens e Lim exploram justamente essa dimensão ao discutirem o conceito bíblico de “mamom”. O dinheiro pode adquirir uma dimensão quase religiosa quando passa a oferecer aquilo que somente Deus pode oferecer: segurança, identidade, poder, controle e sensação de futuro garantido.

É por isso que a pergunta mais importante talvez não seja: “Quanto dinheiro eu tenho?”

Talvez seja: “Quanto poder o dinheiro tem sobre mim?”

A ilusão de que tudo o que possuímos é nosso

Existe uma palavra bíblica que precisamos recuperar: mordomia.

Mordomia não significa simplesmente administrar bem o dinheiro. O conceito é muito mais amplo. O mordomo administra aquilo que pertence a outra pessoa.

E essa perspectiva muda completamente a maneira como enxergamos nossos recursos.

A Bíblia declara:

“Do Senhor é a terra e tudo o que nela existe, o mundo e os que nele vivem.”
Salmos 24:1 (NVI)

Se tudo pertence ao Senhor, então nossa pergunta deixa de ser “O que quero fazer com o meu dinheiro?” e passa a ser “Senhor, o que desejas que eu faça com aquilo que colocaste em minhas mãos?”

Essa mudança parece pequena, mas é revolucionária.

O dinheiro deixa de ser uma propriedade absoluta e passa a ser uma responsabilidade.

Isso inclui o salário que recebemos, a casa em que moramos, os bens que adquirimos, os recursos que administramos, nossa capacidade profissional e até mesmo aquilo que deixaremos para nossos filhos.

O cristão não é simplesmente proprietário. É administrador.

E um dia, todo administrador presta contas.

O problema não é enriquecer. É ser possuído pela riqueza

A Bíblia não apresenta a riqueza como um pecado em si mesma.

Abraão possuía muitos bens. Jó era extremamente rico. Davi acumulou recursos. Salomão recebeu riquezas extraordinárias. José de Arimateia era um homem rico e colocou seu próprio túmulo à disposição para o corpo de Jesus.

Portanto, não podemos transformar pobreza em virtude automática nem riqueza em pecado automático.

O perigo está em outra coisa: quando aquilo que possuímos começa a possuir nosso coração.

Jesus contou a parábola do rico insensato justamente para tratar desse problema. O homem havia trabalhado, produzido e acumulado. Seu problema não estava necessariamente em sua competência ou produtividade. O problema estava na maneira como interpretava sua prosperidade.

Ele pensava apenas em ampliar seus celeiros, guardar seus bens e garantir seu próprio futuro.

Então Deus lhe disse:

“Insensato! Esta mesma noite a sua vida lhe será exigida.”
Lucas 12:20 (NVI)

A morte revelou aquilo que a prosperidade havia escondido.

Ele tinha muitos bens, mas não tinha preparado a própria alma.

Essa é uma advertência que nossa geração precisa ouvir.

Podemos passar décadas construindo patrimônio e esquecer de construir caráter. Podemos aumentar nossa conta bancária enquanto diminuímos nossa capacidade de compartilhar. Podemos deixar uma herança financeira para nossos filhos sem deixar uma herança espiritual.

E, no final, podemos descobrir tarde demais que acumulamos muitas coisas e poucas riquezas que realmente permanecem.

O dinheiro revela nossos valores

Existe algo particularmente interessante na abordagem de Stevens e Lim: o dinheiro não possui apenas valor econômico. Ele também possui valor social.

Nosso dinheiro comunica alguma coisa.

A maneira como gastamos revela o que consideramos importante. A maneira como economizamos revela aquilo que tememos perder. A maneira como damos revela o que estamos dispostos a compartilhar. A maneira como trabalhamos revela o que estamos tentando construir.

Por isso, o dinheiro funciona quase como um espelho.

Quer descobrir onde está o coração de uma pessoa?

Observe para onde vão seus recursos.

Jesus resumiu esse princípio de maneira extraordinária:

“Pois onde estiver o seu tesouro, aí também estará o seu coração.”
Mateus 6:21 (NVI)

Observe a ordem das palavras.

Jesus não diz simplesmente que nosso dinheiro segue nosso coração. Ele afirma que nosso coração também segue nosso tesouro.

Aquilo que valorizamos começa a capturar nossa atenção. E aquilo que captura nossa atenção começa a moldar nossa vida.

Por isso, administrar dinheiro não é apenas aprender a fazer contas. É aprender a ordenar os afetos.

Generosidade não é uma estratégia para ficar rico

Aqui precisamos tocar em um assunto delicado dentro do cristianismo contemporâneo.

Existe uma distorção perigosa da generosidade que transforma o ato de dar em uma espécie de investimento espiritual destinado a produzir enriquecimento pessoal.

“Dê para receber.”

“Plante para ficar rico.”

“Quanto maior sua oferta, maior será sua prosperidade.”

A Bíblia, porém, apresenta uma visão muito mais profunda da generosidade.

Paulo escreve:

“Cada um dê conforme determinou em seu coração, não com pesar ou por obrigação, pois Deus ama quem dá com alegria.”
2 Coríntios 9:7 (NVI)

A generosidade cristã não nasce da manipulação, da culpa ou da promessa de enriquecimento.

Ela nasce da graça.

Nós damos porque recebemos.

Nós compartilhamos porque compreendemos que aquilo que temos não começou em nós.

Nós ajudamos porque reconhecemos no outro alguém que também pertence a Deus.

A verdadeira mordomia não pergunta apenas quanto devo entregar. Ela pergunta como toda a minha vida pode ser colocada a serviço do Reino.

E se a verdadeira riqueza não puder ser guardada em um banco?

Talvez uma das perguntas mais importantes levantadas pelo livro seja justamente esta: onde estamos investindo aquilo que realmente permanecerá?

Jesus falou sobre tesouros no céu. Paulo orientou os ricos a serem “ricos em boas obras”, generosos e dispostos a repartir, acumulando assim um fundamento para o futuro (1 Timóteo 6:17-19).

Isso muda nossa compreensão de investimento.

Há investimentos que aumentam nosso patrimônio.

Há investimentos que aumentam nossa influência.

Há investimentos que aumentam o conforto de nossa família.

Mas existem investimentos que atravessam a eternidade.

Uma refeição oferecida a alguém necessitado. Um filho educado nos caminhos do Senhor. Uma pessoa discipulada. Uma família restaurada. Um missionário sustentado. Uma obra de misericórdia realizada silenciosamente. Uma igreja servida sem buscar reconhecimento.

Nada disso aparece necessariamente em um extrato bancário.

Mas Deus vê.

A riqueza que o mundo chama de pequena pode ter um valor eterno.

O dinheiro deve servir ao propósito, não substituir o propósito

Precisamos aprender novamente a utilizar o dinheiro como ferramenta.

Dinheiro pode alimentar uma família.

Pode financiar uma missão.

Pode construir uma escola.

Pode sustentar um ministério.

Pode aliviar o sofrimento.

Pode criar oportunidades de trabalho.

Pode promover justiça.

Pode cuidar dos pais idosos.

Pode proporcionar descanso legítimo.

Pode ser utilizado de inúmeras maneiras boas.

Mas o dinheiro não pode responder à pergunta fundamental da existência: para que estou vivendo?

Quando tentamos fazer o dinheiro responder a essa pergunta, ele se torna um senhor cruel.

Ele nunca diz “é suficiente”.

Sempre existe uma casa maior, um carro melhor, uma viagem mais sofisticada, uma conta maior, um patrimônio maior.

O problema é que a lógica da acumulação nunca termina por si mesma.

Por isso, o cristão precisa aprender uma palavra que nossa cultura consumista quase desaprendeu: contentamento.

Contentamento não significa acomodação.

Significa saber que minha vida não depende daquilo que possuo.

A pergunta que precisamos fazer

Talvez seja necessário parar de perguntar apenas:

“Como posso ganhar mais dinheiro?”

E começar a perguntar:

“Como posso ser fiel a Deus com aquilo que Ele colocou em minhas mãos?”

Essa pergunta alcança tanto quem possui muito quanto quem possui pouco.

Alcança o empresário e o trabalhador.

Alcança o aposentado e o jovem que está começando a vida.

Alcança quem está construindo patrimônio e quem está aprendendo a administrar o pouco que tem.

Porque mordomia não começa quando sobra dinheiro.

Mordomia começa quando reconhecemos o verdadeiro Dono.

No fim das contas, talvez a grande questão financeira da vida não seja quanto acumulamos, mas quem governou aquilo que acumulamos.

Podemos morrer deixando dinheiro.

Podemos morrer deixando propriedades.

Podemos morrer deixando investimentos.

Mas existe uma riqueza que nenhum inventário consegue registrar: a vida que usamos para servir a Deus e abençoar pessoas.

Jesus nos convida a uma inversão de valores. O mundo diz: “Acumule para garantir seu futuro.”

Jesus diz: “Busque primeiro o Reino de Deus.”

O mundo diz: “Quanto você possui?”

Jesus pergunta: “Onde está o seu coração?”

O mundo diz: “Construa um patrimônio.”

Jesus nos ensina a construir um tesouro que não pode ser destruído.

E talvez a verdadeira liberdade financeira comece justamente quando descobrimos que o dinheiro é um excelente servo, mas um péssimo senhor.

Quando Deus ocupa o lugar de Senhor, o dinheiro finalmente pode voltar ao lugar de ferramenta.

E quando o dinheiro volta ao seu devido lugar, nosso coração também começa a encontrar o seu.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Mães de Joelho no Secreto

Posso fazer sexo quando estou de jejum?

Eu sou uma Esposa de Fé