Mateus 5–7: O Reino que Muda o Coração

Depois de apresentar Jesus como o Rei prometido, Mateus nos conduz a um dos momentos mais importantes de seu Evangelho. Jesus sobe a um monte, senta-se, e seus discípulos se aproximam.

Então começa a falar.

O que vem a seguir é conhecido como Sermão do Monte e ocupa os capítulos 5, 6 e 7 de Mateus.

Ao longo dos séculos, suas palavras foram admiradas por cristãos e não cristãos. Alguns as consideram uma das mais elevadas expressões de ética já apresentadas à humanidade. Outros as leem como princípios para construir uma sociedade melhor.

Mas Mateus nos convida a enxergar algo ainda mais profundo.

Jesus não está simplesmente oferecendo uma coleção de bons conselhos.

O Rei está descrevendo a vida daqueles que pertencem ao seu Reino.

E, quando começamos a ouvi-lo com atenção, percebemos que suas palavras não apenas confortam. Elas também confrontam.

As primeiras palavras do Rei são surpreendentes

Jesus começa com as Bem-aventuranças.

“Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus.” (Mateus 5:3, NAA)

Essa não era a maneira mais óbvia de começar um discurso sobre um reino.

Esperaríamos que Jesus falasse dos fortes, dos poderosos, dos influentes ou dos vencedores.

Ele começa pelos pobres em espírito.

Depois fala dos que choram, dos mansos, dos que têm fome e sede de justiça, dos misericordiosos, dos limpos de coração, dos pacificadores e dos perseguidos.

O Reino de Deus apresenta uma inversão de valores.

Aquilo que o mundo frequentemente considera fraqueza pode revelar uma postura profundamente necessária diante de Deus.

Ser “pobre em espírito” não significa ter baixa autoestima ou desprezar a própria vida. Significa reconhecer a própria necessidade diante de Deus.

O Reino começa quando o ser humano deixa de acreditar que consegue viver independentemente do Rei.

Felicidade não é simplesmente ausência de problemas

As Bem-aventuranças também confrontam uma ideia muito comum: a de que uma vida abençoada necessariamente será uma vida sem sofrimento.

Jesus inclui os que choram.

Inclui os perseguidos.

Inclui aqueles que sofrem por causa da justiça.

Isso significa que a presença de dificuldades não é automaticamente sinal da ausência de Deus.

A perspectiva do Reino é mais profunda.

A verdadeira bem-aventurança não depende exclusivamente das circunstâncias externas. Ela está relacionada à posição da pessoa diante de Deus e à esperança que possui nele.

Essa é uma diferença fundamental.

O mundo pergunta: “O que está acontecendo comigo?”

Jesus também nos ensina a perguntar:

“Quem estou me tornando diante de Deus enquanto isso acontece?”

Sal e luz: o Reino não foi feito para ficar escondido

Depois das Bem-aventuranças, Jesus utiliza duas imagens simples e poderosas:

sal e luz.

“Vocês são o sal da terra.” (Mateus 5:13, NAA)

“Vocês são a luz do mundo.” (Mateus 5:14, NAA)

Jesus não diz apenas que seus discípulos devem tentar ser sal e luz.

Ele afirma que eles são sal e luz.

Isso envolve responsabilidade.

O sal precisa cumprir sua função. A luz precisa iluminar.

O discípulo de Jesus não foi chamado para desaparecer dentro da cultura, nem para viver uma fé completamente escondida.

Mas também não foi chamado para buscar atenção para si mesmo.

Jesus continua:

“Assim brilhe também a luz de vocês diante dos outros, para que vejam as boas obras de vocês e glorifiquem o Pai de vocês, que está nos céus.” (Mateus 5:16, NAA)

O objetivo da luz não é tornar o discípulo famoso.

É fazer com que Deus seja reconhecido.

Essa distinção é importante.

Uma fé genuína não transforma nossa vida em um palco para nossa própria imagem. Ela faz com que as pessoas percebam algo sobre o Deus a quem servimos.

Jesus não veio destruir a Lei

Uma das afirmações mais importantes do Sermão do Monte aparece quando Jesus fala sobre a Lei e os Profetas.

“Não pensem que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, mas para cumprir.” (Mateus 5:17, NAA)

Jesus não apresenta sua mensagem como uma ruptura irresponsável com tudo o que veio antes.

Ele está inserido na história das Escrituras.

A Lei, os Profetas e as promessas anteriores apontavam para a obra que agora encontra seu cumprimento nele.

Por isso, compreender Jesus exige compreender também a história bíblica que o precede.

O Novo Testamento não aparece desconectado do Antigo.

Existe continuidade.

Existe cumprimento.

Existe uma história de redenção que alcança seu centro em Cristo.

O pecado começa antes do comportamento

É aqui que o Sermão do Monte começa a ficar desconfortável.

Jesus fala sobre homicídio, mas vai além do ato externo.

Ele fala sobre a ira.

Fala sobre adultério, mas vai além do ato físico.

Ele fala sobre o olhar e o desejo.

Fala sobre juramentos e chama seus discípulos à integridade.

Em outras palavras, Jesus desloca a discussão do comportamento para o coração.

Isso é revolucionário.

Uma pessoa pode evitar determinadas ações e ainda cultivar dentro de si atitudes incompatíveis com o Reino.

Podemos parecer corretos externamente enquanto alimentamos orgulho, ressentimento, cobiça, inveja ou desejo de vingança.

Jesus não está interessado apenas em reformar comportamentos.

Ele quer alcançar a fonte dos comportamentos.

O problema não começa somente nas mãos.

Começa no coração.

Amar os inimigos

Talvez nenhuma outra afirmação do Sermão do Monte provoque tanto desconforto quanto esta:

“Amem os seus inimigos e orem pelos que perseguem vocês.” (Mateus 5:44, NAA)

Isso não significa aprovar a injustiça, negar o mal ou permitir abusos.

Jesus não está ensinando que o mal deve ser chamado de bem.

Ele está tratando da disposição interior daquele que pertence ao Reino.

O discípulo não deve permitir que o ódio determine seu coração.

A vingança não pode ocupar o lugar que pertence a Deus.

Jesus conduz seus ouvintes para uma ética que não depende da reciprocidade.

Amar somente quem nos ama é relativamente fácil.

O Reino vai além.

Ele chama o discípulo a responder ao mal sem tornar-se semelhante ao mal que sofreu.

A espiritualidade que Deus vê

No capítulo 6, Jesus muda o foco para as práticas religiosas.

Ele fala sobre esmolas, oração e jejum.

E aqui surge outra confrontação.

É possível fazer coisas espiritualmente corretas pelas razões erradas.

Uma pessoa pode dar aos necessitados para ser admirada.

Pode orar para ser vista.

Pode jejuar para construir uma imagem de espiritualidade.

Jesus não está condenando essas práticas.

Ele está expondo a possibilidade de praticá-las sem que o coração esteja verdadeiramente voltado para Deus.

Por isso, repetidamente, aparece uma ideia:

o Pai vê em secreto.

Essa verdade é libertadora.

Nem tudo que é espiritualmente importante será reconhecido pelas pessoas.

Existem orações que ninguém ouvirá.

Sacrifícios que ninguém perceberá.

Lutas interiores que não aparecerão nas redes sociais.

Obediências silenciosas que talvez jamais recebam aplausos.

Mas o Pai vê.

A espiritualidade do Reino não depende da aprovação pública.

“Pai nosso”: quando Jesus ensina a orar

É nesse contexto que encontramos a oração do Pai Nosso.

Jesus começa:

“Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome.” (Mateus 6:9, NAA)

Observe a ordem.

Antes de apresentar nossas necessidades, Jesus nos ensina a olhar para Deus.

Seu nome.

Seu Reino.

Sua vontade.

Depois vêm o pão, o perdão e a proteção.

Existe uma pedagogia espiritual nessa oração.

O coração aprende primeiro a reconhecer quem Deus é e, então, aprende a colocar diante dele aquilo de que necessita.

Jesus não ensina uma fórmula mágica.

Ensina uma postura.

Orar é entrar conscientemente diante do Pai.

Onde está o seu tesouro?

Pouco depois, Jesus toca em outro assunto que revela profundamente o coração humano: dinheiro e tesouro.

“Porque, onde estiver o seu tesouro, aí estará também o seu coração.” (Mateus 6:21, NAA)

Essa frase é curta, mas extremamente penetrante.

Jesus não pergunta apenas quanto possuímos.

Ele pergunta onde está nosso coração.

Aquilo que valorizamos acaba revelando aquilo que nos governa.

Dinheiro pode ser necessário para a vida, mas não pode ocupar o lugar de Deus.

O problema não está simplesmente em possuir bens.

O problema começa quando os bens passam a possuir o coração.

Por isso Jesus apresenta uma escolha:

“Ninguém pode servir a dois senhores.” (Mateus 6:24, NAA)

O Reino exige lealdade.

“Não se preocupem”

Logo depois, Jesus fala sobre ansiedade e preocupação.

“Portanto, não se preocupem com o dia de amanhã, pois o amanhã trará os seus cuidados.” (Mateus 6:34, NAA)

Jesus não está ensinando irresponsabilidade.

Não está dizendo que planejamento é desnecessário ou que problemas reais não existem.

Ele está confrontando a escravidão interior produzida pela preocupação.

Existe uma diferença entre planejar o amanhã e viver emocionalmente aprisionado pelo amanhã.

O discípulo pode trabalhar, planejar e agir com prudência sem transformar o futuro em seu senhor.

A confiança em Deus não elimina a responsabilidade.

Ela impede que a responsabilidade se transforme em desespero.

Antes de julgar, olhe para si

No capítulo 7, Jesus começa falando sobre julgamento.

“Não julguem, para que vocês não sejam julgados.” (Mateus 7:1, NAA)

Esse texto muitas vezes é utilizado como se Jesus tivesse proibido qualquer discernimento moral.

Mas a própria continuação do ensino mostra que não é isso.

Jesus fala sobre o cisco no olho do irmão e a trave no próprio olho.

O problema não é perceber que existe algo errado.

O problema é enxergar o erro do outro com enorme clareza enquanto somos incapazes de reconhecer nossos próprios problemas.

O discípulo precisa aprender a começar consigo mesmo.

Primeiro a trave.

Depois o cisco.

Primeiro arrependimento.

Depois restauração.

A regra de ouro

Jesus apresenta então uma das frases mais conhecidas de seu ensino:

“Tudo, portanto, o que vocês querem que os outros façam a vocês, façam também vocês a eles.” (Mateus 7:12, NAA)

A chamada Regra de Ouro resume uma postura ativa de amor.

Não basta evitar fazer o mal.

É preciso buscar fazer o bem.

O discípulo não pergunta somente:

“Eu fiz alguma coisa errada?”

Também pergunta:

“Estou fazendo aos outros aquilo que gostaria que fizessem comigo?”

Essa diferença transforma completamente nossos relacionamentos.

Duas portas, dois caminhos

Jesus alerta que existem duas portas e dois caminhos.

Existe o caminho espaçoso e existe o caminho estreito.

A imagem é simples, mas a mensagem é séria.

Nem todo caminho conduz à vida.

Nem toda opinião é verdadeira.

Nem toda espiritualidade conduz a Deus.

O Reino exige discernimento.

Jesus não apresenta o discipulado como uma estrada de conveniência.

Ele fala de um caminho que exige decisão.

A árvore revela seus frutos

Jesus também adverte contra os falsos profetas.

“Assim, pois, pelos seus frutos vocês os conhecerão.” (Mateus 7:20, NAA)

Novamente, a questão é o que existe por trás da aparência.

Uma árvore pode ter aparência saudável durante algum tempo.

Mas seus frutos revelam sua natureza.

O princípio também pode ser aplicado à vida espiritual.

Palavras impressionantes não substituem caráter.

Dons não substituem santidade.

Aparência religiosa não substitui obediência.

O Reino de Deus não é construído sobre performance espiritual.

“Senhor, Senhor”

O Sermão do Monte termina com uma das advertências mais solenes:

“Nem todo o que me diz: ‘Senhor, Senhor!’ entrará no Reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus.” (Mateus 7:21, NAA)

Essa afirmação deveria nos fazer parar.

Jesus não está falando com pessoas que nunca ouviram falar de Deus.

Ele está falando de pessoas que dizem “Senhor”.

Existe, portanto, uma diferença entre professar algo com os lábios e submeter-se verdadeiramente ao Rei.

A fé bíblica não é apenas discurso.

Ela produz obediência.

Não somos salvos por nossas obras, mas uma fé verdadeira não permanece estéril.

O Rei transforma aqueles que realmente pertencem ao seu Reino.

A casa construída sobre a rocha

Jesus encerra o Sermão do Monte com uma imagem memorável.

Dois homens constroem casas.

A chuva cai.

Os rios transbordam.

Os ventos sopram.

A diferença não está na existência da tempestade.

As duas casas enfrentam a mesma realidade.

A diferença está no fundamento.

“Todo aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as pratica será comparado a um homem prudente que construiu a sua casa sobre a rocha.” (Mateus 7:24, NAA)

Perceba algo importante:

Jesus não diz simplesmente “aquele que ouve”.

Diz:

“ouve e pratica”.

Conhecimento sem obediência não produz fundamento.

Ouvir sermões não é o mesmo que seguir Jesus.

Conhecer a Bíblia não é o mesmo que viver a Palavra.

Saber o que Cristo ensinou não significa necessariamente estar submetido a Cristo.

A tempestade revela o fundamento.

O Reino começa no coração

Mateus 5–7 apresenta uma visão radicalmente diferente de espiritualidade.

Jesus não está interessado em criar pessoas religiosamente impressionantes.

Ele está formando cidadãos do Reino.

Pessoas que reconhecem sua pobreza espiritual.

Que buscam justiça.

Que praticam misericórdia.

Que perdoam.

Que amam.

Que oram.

Que não vivem dominadas pelo dinheiro.

Que confiam no Pai.

Que examinam primeiro o próprio coração.

Que discernem.

Que produzem frutos.

Que ouvem as palavras do Rei e as colocam em prática.

O Sermão do Monte, portanto, não é simplesmente um conjunto de regras para tornar pessoas moralmente melhores.

É uma revelação de como é uma vida submetida ao governo de Cristo.

E talvez seja justamente por isso que suas palavras continuam tão desconfortáveis.

Jesus não pergunta apenas:

“Você conhece meus ensinamentos?”

Ele pergunta, por meio de todo o discurso:

“Sua vida está realmente construída sobre eles?”

O Rei chegou.

Agora ele começa a ensinar como vivem aqueles que pertencem ao seu Reino.

Para continuar a série

No próximo artigo, entraremos em Mateus 8–10, onde a autoridade de Jesus deixa de ser apresentada apenas em palavras e começa a ser demonstrada de maneira extraordinária. Enfermos são curados, demônios são expulsos, tempestades são confrontadas e discípulos são enviados.

O Rei que ensinou com autoridade também demonstra que possui autoridade sobre a doença, a natureza, os espíritos e a própria vida.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Mães de Joelho no Secreto

Posso fazer sexo quando estou de jejum?

Eu sou uma Esposa de Fé